Volta por cima, Rocas e personalidade forte: Rodriguinho e família sonham com Copa

 GloboEsporte.com lembra trajetória desde o futsal, dificuldades e traços que marcam o atual momento do meia do Corinthians. Base familiar é força para guinada na carreira.

 

 Vestir a camisa da seleção brasileira numa Copa do Mundo é um fato raro. Para jogadores do Rio Grande do Norte, ainda mais. Apenas dois conseguiram o feito: o mossoroense Dequinha, em 1954, e o natalense Marinho Chagas, em 1974. O meia Rodriguinho, destaque do Corinthians, vive a expectativa de entrar neste seleto rol na próxima segunda-feira, quando Tite anuncia a lista dos convocados para o Mundial da Rússia.

 Aos 30 anos, o jogador está no melhor momento da carreira. É protagonista há pelo menos dois anos no atual campeão brasileiro e bicampeão paulista e tem sido decisivo nas conquistas. Até aqui, acumula duas convocações, para os amistosos contra a Colômbia e diante da Austrália e Argentina no ano passado, que o ajudam a crer no novo carimbo no passaporte.

 A fase dentro de campo é reflexo também de uma maturidade atingida há alguns anos, que o faz não ter medo das câmeras, admitir sem medo tomar uma cerveja quando está de folga e comentar questões sobre política nas entrevistas que concede.

 A base familiar, um pé fincado nas origens no humilde bairro das Rocas, na zona Leste de Natal, e o foco em conseguir explorar todo potencial como jogador fazem parte desse processo de crescimento, segundo relatam os parentes. E isso tem feito Rodriguinho seguro para viver esse momento de sonho.

- Tite sempre falou que os jogadores que vivem um momento bom são os que têm chances de serem convocados. Ele vive um momento bom e tem capacidade, já mostrou isso. Ele é um jogador de referência no Corinthians. Eu confio muito na capacidade de Tite e acho que ele tem chance, apesar da concorrência ser grande, tem muitos jogadores de qualidade - diz Salete Marinho, mãe do jogador.

 E uma possível convocação será como uma vitória de toda a família.

- A gente vive futebol aqui em casa. Nossa casa gira em torno da carreira do Rodrigo. Somos o que chamamos de 'Plataforma Reidriguinho', porque a gente está sempre apoiando e trabalhando por ele. O futebol começa muito antes de entrar nas quatro linhas. Aquilo que quando o juiz apita do início ao término do jogo é só o desdobramento de tudo que aconteceu antes. E esse antes, nos bastidores, é onde a família trabalha e é muito importante - fala o irmão Alexandre Marinho, que gerencia as redes sociais do jogador.

Já foi diferente

 Mas o momento nem sempre foi tão bom assim. Se hoje ele corre atrás de uma vaga na seleção brasileira, há alguns anos a realidade era completamente diferente. Revelado no ABC, Rodriguinho era visto como promessa e teve chances no time principal, foi campeão estadual de 2008, mas deixou o clube no ano pelas portas do fundo.

 Ele era criticado pela torcida pelo extracampo e visto como como descompromissado. Assim, foi afastado do time principal, chegou a se licenciar do futebol profissional e voltou a jogar futsal pelo clube - foi campeão estadual em 2009 nas quadras.

 O contrato com o Alvinegro, que acabava naquele ano, não foi renovado e o jogador seguiu para o Bragantino sem custos - hoje a multa rescisória dele é na casa dos R$ 40 milhões.

- Ele nunca pensou em desistir. Ele sempre quis dar a volta por cima. Sempre acreditou muito. Ele é muito otimista, extremamente otimista. Isso ajuda bastante. O tempo todo ele acredita. E passa isso pra gente também. Então, nunca houve esse medo, esse recuo. A gente sabia que aquilo ali seria momentâneo e que íamos dar a volta por cima - garante a mãe do meia.

 Rodriguinho teria uma passagem rápida pelo Bragantino entre 2010 e 2011. A ida para o América-MG, para a Série B daquele mesmo ano, é que mudaria o patamar do meia, que chegou a ser sondado pelo Milan no período. O acerto com o Corinthians aconteceu em 2013, quando ele deixou o Coelho como ídolo.

Minha casa é "as Rocas"

- Aqui é uma comunidade que tem um povo muito batalhador, muito persistente, perseverante. Essa raiz do nosso bairro, da nossa comunidade, ele carregou.

 A frase do amigo de infância Sílvio Leonardo relata um pouco o tamanho do feito conseguido por Rodriguinho. Ele é o filho mais pródigo do bairro das Rocas, uma região humilde na zona Leste de Natal. Lá, foi criado e viveu boa parte da sua vida, inclusive quando já era profissional no ABC. A paixão pelo lugar e pelos amigos que lá ainda vivem nunca saíram do meia, que sempre visita o bairro durante as férias.

 Ele, inclusive, passou a ser o principal apoiador de um projeto no bairro, o “10 da Bola”, que oferece treinos de futebol a crianças carentes das Rocas e outras regiões próximas. As atividades acontecem no simples estádio João Câmara, onde Rodriguinho tanto bateu bola.

 O meia acertou uma parceria com o seu fornecedor de material esportivo para ceder 400 uniformes (camisas, calções e meiões) para os garotos do projeto. Mais do que o apoio financeiro, Rodriguinho serve de exemplo para os meninos, de que é possível sair daquela realidade, que tanto cerceia o futuro dos jovens, e conquistar algo na vida.

 Por isso, faz questão de sempre comparecer na festa de final de ano. Como há uma seleção para saber quem foram os melhores da temporada no projeto, os garotos se dedicam para receber o prêmio das mãos do astro do Corinthians.

 - Quando Rodriguinho chegou neste último ano, ele quase não consegue entrar. E os meninos cantaram o nome dele. Acho que isso, pra ele, seja o maior presente que consiga receber. É chegar na sua comunidade e ter um monte de criança chamando seu nome. Não tem nada que pague isso - conta Neto Ramos, idealizador do “10 da bola”, fundado em 2009.

- Uma comunidade carente como essa tem coisas que atrapalham os jovens de irem muito longe. Então, uma pessoa que chega como referência é importante para que sirva de espelho para que os meninos galguem alguma coisa lá na frente - completa Neto.

Cabeça no lugar

 Para o pai de Rodriguinho, João Marinho, o filho nunca deixou o sucesso o subir à cabeça e sempre se manteve humilde, ciente de suas origens.

- Eu tenho o cuidado e fico feliz por Rodrigo ter um bom comportamento. Mesmo sendo aquele cara que está sempre na imprensa, ele não se deixar levar por isso. Ele não se sente maior do que ninguém. É uma pessoa que se sente tranquila, atende todo mundo. Seja rico, pobre, humilde - se orgulha.

 A referência à vida de Rodriguinho em conexão com o bairro sempre foi vista com orgulho pela família. Por isso, a motivação para tentar ajudar a comunidade a ter uma nova realidade.

- A figura do meu irmão sempre é ligada ao bairro das Rocas, onde a gente cresceu, se fez, se formou. E é uma realidade, sabemos todos, muito difícil sob o ponto de vista de violência, de falta de oportunidade. A gente cresceu enfrentando essa realidade, essa dificuldade. Agora, inseridos numa nova realidade, nós podemos modificar um pouco essa realidade anterior - destaca Alexandre Marinho.

 O curioso é que o principal time do bairro se chama Palmeiras das Rocas e fica na rua São Jorge. Recentemente, o clube que revelou o atacante Tiquinho, atualmente no Porto, ganhou fama porque teve o escudo usado pelo Barcelona em uma postagem nas redes sociais.

"Senso de raciocínio muito rápido"

 Rodriguinho teve toda a sua formação entre futsal e o futebol de campo durante a infância e adolescência. Ele estudou no Colégio Nossa Senhora das Neves, em Natal, onde jogava futsal e foi treinado por quase oito anos por Andrey Valério, ex-técnico da seleção brasileira de futebol de areia. E o treinador garante que o menino já se mostrava muito acima da média dos demais. Pela instituição, foi campeão dos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte em 2001, na categoria mirim.

- Ele sempre teve um senso de raciocínio muito rápido e era muito produtivo. Ele pensava rápido e agia rápido, e isso surpreendia a criançada da época. Dominava a bola e já tomava a decisão de passar, de driblar. Isso para uma categoria de 12 anos é diferenciado. E ele era diferenciado. E a gente já observava isso ali - garante.

 O desempenho no futsal do colégio rendeu uma bolsa de estudos ao meia, o que o ajudou, já que ele vivia uma realidade mais humilde naquele momento. E, dentro de quadra, a personalidade que muitas vezes ele expõe hoje em entrevistas, ele já mostrava quando era adolescente.

- Muitas vezes quando o time estava numa situação difícil na partida, ele resolvia. Dizia: ‘Dá a bola aqui’. A bola ia para ele e ele resolvia - garante o treinador.

De Rodrigo a Rodriguinho

 Enquanto Andrey desenvolvia o futebol do garoto com um tênis no pé, o técnico Francisco Carlos, o Cacau, apresentava a chuteira e a grama a ele. Foi com Cacau, inclusive, que surgiu o diminutivo no nome do garoto franzino que até então era conhecido apenas como "Rodrigo", já que existia um homônimo na equipe.

 Rodriguinho passou a jogar campo com sete anos de idade, um a menos do que a escolinha de Cacau permitia na época. Isso porque o atual jogador do Corinthians apresentou uma "coordenação diferenciada" e uma "personalidade muito grande".

 Cacau conta que Rodriguinho disputou vários campeonatos de categorias acima da idade e, ainda assim, se destacou. Apesar de desenvolver várias questões técnicas no meia, em algumas ele não conseguiu evoluir no jogador.

- Ele tinha muito receio de cobrar pênalti, até hoje eu brinco com ele. Ele não queria e eu dizia: 'Vai, porque você tem essa qualidade'. Ele não gostava de cobrar falta também, até hoje. Enfim, não sei o porquê. São coisas que nós tentamos naquela época e não foi possível - lembra.

 Cacau se orgulha de ter participado do que chama de período de "alfabetização no futebol" de Rodriguinho, mas, sobretudo, de ver a formação do aluno fora dos campos, numa construção intelectual que foge do estereótipo dos boleiros.

- Eu acho que a gente pôde contribuir e eu fico lisonjeado que vez ou outra ele deixa transparecer isso. Eu hoje fico muito feliz também porque vejo um atleta diferente no seio do futebol. Ele sabe se colocar, se expressar. Ele tem uma base familiar, uma base de escola muito grande - destaca o professor.

Porto seguro

Tudo que a família Marinho quer na próxima segunda-feira é repetir um momento marcante que aconteceu no dia 19 de janeiro do ano passado, quando Rodriguinho foi chamado pela primeira vez para a seleção brasileira, para o amistoso diante da Colômbia. Naquele jogo, inclusive, ele entrou no segundo tempo, com o número 18 nas costas, e participou do gol marcado por Dudu. Apenas jogadores que atuavam no Brasil foram convocados naquela partida.

- Nós estávamos assistindo à convocação aqui (sala de casa). Estávamos fazendo uma chamada de vídeo e vendo ao mesmo tempo. Ele lá e a gente aqui. Ou seja, a gente só não estava fisicamente junto. Foi um momento de muita alegria, de muita felicidade pra nós, porque a gente via ali a alegria e a esperança dele ser convocado para outros jogos até ser convocado para a Copa do Mundo - conta a mãe do jogador.

 A segunda convocação veio para os amistosos contra Austrália e Argentina. E as três camisas desse momento marcante são guardadas no apartamento da família em Natal. Rodriguinho entrou novamente contra a Austrália.

 O meia é muito ligado à família, que mora em Natal. Enquanto a equipe do GloboEsporte.com estava no apartamento dos pais do jogador, ele ligou para o irmão numa chamada de videoconferência e acompanhou parte da produção da matéria.

 Alexandre, que chegou a morar nos Emirados Árabes Unidos quando Rodriguinho defendeu o Al-Sharjah entre 2014 e 2015, vê o irmão como um ídolo. Tecnicamente, é inegável a capacidade do jogador, que, segundo Alexandre, tem conseguido grandes voos por manter os pés no chão e a mente aberta.

- Ele é irmão, é ídolo e é referência. Mas ele também é aprendiz. Ele também tem a capacidade de parar e falar: 'Ele me conhece desde pequeno, então eu vou aprender com ele também e vou aprender com toda família'. Essa colocação num patamar abaixo faz com que ele consiga galgar degraus muito mais altos. É por causa dessa humildade que ele consegue estar além dos outros - destaca.

Vai dar?

 A família e os amigos agora sonham com a convocação de Tite. A concorrência com nomes como Giuliano, Lucas Lima, Arthur, Diego Ribas, Fred e Anderson Talisca deixam a missão mais difícil, mas é possível.

 Para o comentarista da Globo, Caio Ribeiro, a possibilidade é que Rodriguinho esteja entre os 30 convocados, mas na lista de suplentes.

- Para essa Copa do Mundo, eu acho um pouco difícil. De repente, ele pode até aparecer naquela lista maior, dos suplentes. Algum imprevisto que aconteça com algum jogador já convocado, você busca daqueles reservas. É muito legal e ele tem que estar muito orgulhoso de estar no radar da Seleção, de ser cogitado para a Seleção. Pelo que eu estou vendo de Coutinho, Neymar, dos jogadores que jogam lá fora, o momento do Paulinho, do Gabriel Jesus. Eu acho que tem poucas vagas em aberto - acredita.

 Caso a convocação não aconteça, mesmo chegando tão perto, não há dúvidas de que Rodriguinho saberá lidar com ela de forma natural, assim como aconteceu após a saída do ABC ou a busca por um recomeço no próprio Corinthians após uma primeira passagem apagada. Enquanto o pai garante que "ele não se abaterá", o ex-treinador Andrey Valério o define como uma "pessoa madura que conseguirá dar seguimento à carreira".

 Mas, caso Rodriguinho esteja entre os 23 anunciados por Tite na segunda-feira, o amigo Sílvio Leonardo já deixou o recado:

- Ele marcará o nome na história. E será a maior festa de todos os tempos nas Rocas, pode ter certeza disso - disse Silvio.

Fonte: G1/RN

 

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