Dor sem fim: família de Gil tenta lidar com saudade e busca indenizações

 Morte do potiguar de 29 anos que estava no voo da Chapecoense ainda é sentida diariamente por pais, irmãos, mulher e filhas. Viúva guarda relíquias resgatadas

 

 Um ano após a tragédia que matou 71 pessoas no acidente com o avião da LaMia em Medellín, a morte do volante potiguar José Gildeixon Clemente de Paiva, o Gil, de 29 anos, ainda deixa marcas profundas no seio familiar do jogador. Os pais do atleta, os irmãos, a esposa e as filhas ainda travam uma batalha diária para conviver com a perda e buscam seus direitos na Justiça.

 Os pais dele moram numa pequena casa na cidade de Nova Cruz, distante 90 quilômetros de Natal. Hoje, a sala do ambiente é uma espécie de santuário do filho, com fotos espalhadas, troféus e um quadro em homenagem a Gil.

 - Eu ainda estou vivendo meu luto. Vai fazer um ano, mas eu ainda estou vivendo um luto. Ainda não tem um dia na minha vida em que eu não derrame lágrimas, que eu não lembre do meu filho - diz Damiana Clemente de Paiva, a dona Nina, mãe do jogador.

 Desde que se tornou profissional no futebol, Gil estava longe de casa, mas mantinha contato diário com os pais. Além disso, cumpria uma função tradicional na vida de jogadores profissionais: era o sustento da casa, missão que segue cumprida à risca pela viúva Valdécia Paiva, que paga uma mesada aos pais do atleta.

 Valdécia, a Val, de 26 anos, foi fiel escudeira de Gil durante toda a vida do atleta. Eles se conheceram na cidade de Nova Cruz antes mesmo dele se tornar jogador profissional. De lá, seguiu o volante nas cidades em que ele atuava. Desde a morte do marido, Val vive com as duas filhas, Gabriela, de seis anos, e Lívia, de quatro, num apartamento na zona Sul de Natal e briga pelos direitos do do jogador. Hoje, cursa Direito em uma faculdade particular da capital potiguar.

 Ela foi a primeira esposa a dar entrada na Justiça do Trabalho contra a Chapecoense, em março deste ano, cobrando integralização da remuneração do marido, danos morais e lucro cessante, referente a expectativa de vida profissional interrompida pela morte.

 - A assistência que eu recebi da Chapecoense é muito difícil. Eu dei o meu esposo vivo e eles me entregaram morto, num caixão todo se despedaçando. Eu não sabia se eu chorava, se eu vivia a minha emoção ou se eu tinha que cuidar porque a qualquer momento aquele caixão poderia abrir. Desde que tudo aconteceu, eu não tive assistência nenhuma da Chapecoense. Eles falam de um seguro que não foi pago por eles, foi pela seguradora. E eles só fizeram o seguro, não porque eles são bons, porque é uma legalidade. Então, assim, não recebi nada da Chapecoense, recebi só meu esposo morto. E hoje eu luto pela dignidade, pelo respeito que ele tinha pelo clube. Eu luto por esse respeito - relata.

 As esposas dos atletas receberam, do seguro de vida, o referente a 40 meses de salários: 12 foram pagos pela Confederação Brasileira de Futebol e outros 28 pela Chapecoense. O cálculo, no entanto, considera apenas os valores estipulados na Carteira de Trabalho, sem considerar os direitos de imagem. Para os pais de Gil, nenhuma assistência também foi oferecida pelo clube, explica Nina, mãe do atleta, que frequenta psicólogos pagos por Valdécia.

Gil estava realizado

 Aos 29 anos de idade, Gil estava realizado no futebol. Descoberto num campo de terra na rua por trás da sua casa em Nova Cruz, o volante passou pelas bases do URT, jogou no Santa Cruz do Inharé-RN, Mogi Mirim, Guaratinguetá e Vitória até despontar naquele Santo André vice-campeão paulista de 2010. De lá, seguiu para a Ponte Preta e passou com sucesso pelo Coritiba antes de ir para a Chapecoense.

 No clube do interior catarinense, vivia seu melhor momento profissional, tanto é que não sonhava com mais nada na carreira. A viúva Valdécia Paiva conta que na quinta-feira que antecedeu o acidente teve uma conversa com o marido para fazer "um propósito para 2017". Evangélicos, eles entregariam esses desejos ao pastor da igreja, que levaria a Israel. Quando perguntou a Gil quais eram seus planos, se surpreendeu.

 - Ele me disse: 'Não, eu não tenho mais vontade de jogar num time grande'. Eu perguntava para ele várias coisas, que eu achava que antes eram sonhos dele, e ele dizia que não. Aí ele completou assim: 'Eu já tenho tudo que eu queria. Tenho uma família maravilhosa, duas filhas. Estou onde eu queria chegar no futebol'. A gente sabe, para a gente daqui (do Rio Grande do Norte), o quão difícil é estar na vitrine do futebol, na Série A. Ele disse que já tinha chegado no máximo. E eu até falei assim: 'Nossa, você tem que ter sonhos, porque uma pessoa sem sonhos é uma pessoa morta'. Ele me respondeu: 'Eu já conquistei tudo que eu queria'. Foi bem forte essa nossa conversa, porque ela marcou. Ele estava assim, feliz. Não tinha nada pra pedir. 'Eu não tenho nada pra pedir, só agradecer' - conta.

 Eu não consigo ver um jogo, porque eu quero ver um jogo em que está passando o meu Gil. Mas como que eu vou ver se ele não está ali? É muito difícil - diz dona Nina, mãe de Gil.

Objetos trazem memória

 "Uma vida com propósitos - Para que estou na Terra?" era o título do livro que Gil levava para Medellín há um ano. Esse livro, a bíblia, a chuteira, o celular, a camisa que iria entrar em campo na final da Sul-Americana e a aliança do jogador foram encontrados no local do acidente meses após a tragédia e devolvidos a Val.

 - As primeiras coisas que eu recebi foram a aliança e o celular. Eu lembro quando a aliança chegou, era como se ele estivesse lá. Foi muito forte, eu andava com aquele pacote e não tinha forças para abrir. Quando eu abri, com certeza foi uma emoção muito grande, porque estava ali com ele. O celular também, eu já abri para ver qual foi a última foto. Eles chegaram perfeitos. Então eu guardo como algo muito precioso - recorda.

 Os outros objetos chegaram cerca de quatro meses depois, lembra Val. Na bíblia, há um carimbo em espanhol que destaca que o objeto foi encontrado no dia 22 de janeiro de 2017 (veja abaixo) - quase dois meses após o acidente.

 - O livro é 'Uma vida com propósitos', que na verdade eu tinha comprado para mim, para entender o propósito da minha vida. Chegou um determinado momento que eu dei para ele. E todas as viagens, eu cobrava ele, se ele já tinha lido, se já estava perto de acabar, que eu queria ler. E hoje eu quero mais do que nunca conseguir estar bem para ler e entender o propósito da minha vida - conta.

Gil havia relatado voo tenso pela LaMia

 Logo após a derrota para o Palmeiras, que deu o título brasileiro ao time paulista na 37ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016, o elenco da Chapecoense se preparava para o itinerário em direção à Medellín. No dia seguinte, Val e o marido fizeram contato, antes da viagem, e ele relatou que estava cansado por conta de um treino físico que havia feito pela manhã. Assim, já se mostrava preocupado com o desgaste do trajeto e citava que o último voo feito com a LaMia havia sido "difícil".

 - Ele disse que estava muito cansado. Que estava essa incerteza de vai, não vai, de libera, não libera (o voo fretado), mas ele já sabia que a viagem seria desgastante. Que a última vez que eles viajaram por essa companhia foi bem difícil o voo. Então, ele estava meio nessa tensão de como seria essa viagem. Mas, sem dúvida, o fato de ele estar indo jogar essa final tirava toda essa tensão. Ele estava muito feliz - lembra.

 Enquanto Gil viajava para a Colômbia, Val preparava uma surpresa para o marido. Eles estavam de mudança para outro apartamento na cidade de Chapecó. Para decorar o ambiente, ela mandou fazer um quadro com vários momentos do jogador na Chape. A ideia era mostrar a homenagem assim que ele voltasse de Medellín.

 - Eu preparei um quadro pra mostrar para ele, para colocar lá na sala, mostrando todos os momentos dele na Chapecoense. Fiz aquele quadro (mostrando no apartamento atual), mas aí não deu para ele ver - disse.

 Ela deu uma réplica do quadro para os pais de Gil, que a fixaram na parede da sala da casa em Nova Cruz.

Ritual com o pai

 Gil tinha um ritual do qual não abriu mão durante toda a carreira. Antes e depois de cada partida que jogava, ele ligava para o pai, Geraldo Clemente de Paiva, e falava sobre as questões do jogo. Fez isso até a última partida da sua vida, contra o Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro. Geralmente, a conversa se seguia com a mãe. Mas, nesse dia, Gil pediu para o pai não acordar dona Nina.

 - A última vez que ele ligou, ele falou com o pai dele. Ele ia viajar para lá (Medellín). Eu estava dormindo e ele falou: 'Pai, não acorda ela, deixa ela dormir'. E eu não escutei mais a voz do meu filho. A última vez que eu falei com ele foi no último jogo que eles definiram (contra o San Lorenzo, pela semifinal da Sul-Americana). No dia do acidente, eu senti tudo. Até hoje dói. Aquela lembrança não sai daqui. A gente nunca pensa que vai acontecer com a gente. Eu nunca pensei que isso ia acontecer com meu filho, nunca - lamenta Nina.

 Seu Geraldo, pai de Gil, é um homem calado. Ele fala pouco, mas deixa claro no olhar a dor da perda do filho. A relação dos dois era muito próxima, apesar da distância geográfica. Apaixonado por futebol, o pai sempre ganhava do filho camisas dos clubes contra os quais Gil entrava em campo. Hoje, tem uma coleção em casa. Sentado no sofá da casa, ele pega uma das fotos do filho e desabafa em tom baixo.

 - É doloroso. Eu já perdi mãe, pai, mas nunca pensei que meu filho iria antes de mim. Não é fácil, não. Essa foto estava em cima do caixão dele no dia do sepultamento. Depois da cerimônia, eles me deram de lembrança - recorda o pai de Gil.

 A dor se mistura com um orgulho que carrega no peito pelo que Gil foi. Ao mostrar o campo em que o filho começou a jogar futebol, na rua por trás da casa onde mora até hoje, ele se sente contemplado.

 - Para começar e sair daqui desse campo tem que ter muita força de vontade, viu? - diz seu Geraldo.

Conversa com as filhas

 Um dos momentos mais difíceis para Val foi contar para as filhas, Gabriela (6) e Lívia (4) que o pai havia morrido. Ela diz que logo após o acidente decidiu falar com as meninas como tudo aconteceu.

 - Eu ilustrava para elas trazendo todas as coleguinhas delas lá de Chapecó, que estavam sem pais. Eu falava pra elas: 'Você lembra o pai desse, você lembra o pai daquele? Pois é, filha, eles estavam juntos com o papai no avião. E o avião foi caindo, caindo e despedaçou'. Até a nossa primeira viagem de avião foi bem difícil, porque elas achavam que ia acontecer a mesma coisa - lembra.

 Val diz que as meninas sempre foram apegadas a Gil e que diariamente sentem a falta do pai.

 Elas também tinham um vínculo muito grande com ele. Então todos os dias, ou quase todos os dias, a mais velha chora, a menor busca algo para lembrar dele, para falar nele. Até ontem ela dizia assim para mim: 'Mãe, o nosso príncipe está lá no céu, né?' Daí eu confirmava com ela e ela dizia: 'O nosso principe é Gildeixon'. E dava risada, muito alegre para elas. Porque elas têm orgulho do pai delas - narra.

- Eu trouxe de Chapecó umas medalhas e um quadro. Eu estava muito tensa para mostrar pra elas. 'Como que eu mostro?' Recentemente nós estávamos bem naqueles dias difíceis, aí eu peguei esse quadro e essas medalhas e fui falar para elas da importância que o pai delas tem para o mundo hoje. E falava daquelas medalhas, que eram só as pessoas mais especiais que conseguiram. E o pai delas tinha recebido. A mais velha, que é a Gabriela, encheu os olhos de lágrimas e disse: 'Mãe, eu tenho muito amor pelo meu pai' - conta Val.

Força para seguir

 A morte de Gil completou um ano neste dia 29 de novembro. "Vivendo um dia de cada vez", Val se apega às filhas para seguir forte e não deixar o ambiente triste.

 - Elas têm sido meu combustível aqui na terra, de força. Elas que têm me motivado todos os dias a me levantar, me levantar bem. Elas que têm me motivado a secar as lágrimas nas horas que elas querem correr. Aí eu seguro para que elas não vejam tristeza. Porque nosso ambiente sempre foi muito alegre. Éramos os quatro, a gente era muito família. Então sempre foi nós quatro. E hoje eu tento preservar aquela alegria, aquela união que a gente tinha, sendo as três - enfatiza.

 Val diz não responsabilizar a Chapecoense pelo acidente, mas acredita que o clube poderia ter tido mais respeito pelas famílias das vítimas.

 - Ela (Chapecoense) tem a parcela de responsabilidade dela, não julgo toda dela. Porque eles tinham uma diretoria muito séria. E era um dos fatores que Gil estava muito feliz lá. Então eu não acredito que uma diretoria tão séria iria contratar um voo pra colocar em risco a vida de todos, inclusive deles. No mais, acontecido tudo isso, a gente esperava um pouco de dignidade, de respeito, porque eu fui para uma homenagem agora, com o ministro do Esporte, e meu coração doía de ver tantas famílias destruídas, tantas crianças sem pais. E hoje você vê, assim, que foi por algo tão pequeno. Que hoje a gente daria tudo que a gente tem para tê-los de volta - lamenta.

 Ex-jogador, Geraldo Madureira tem uma homenagem ao irmão Gil estampada no carro. Ele se orgulha do carinho que as pessoas têm pelo irmão e busca propagar a imagem do ex-camisa 8 da Chapecoense.

 - Para a gente, ele sempre foi um herói. E vai ser para o resto das nossas vidas. O que eu puder fazer de homenagem a ele, eu vou homenagear. Coloquei foto no para-brisa do meu carro, vou colocar outra. O profissional focado que ele era. Era o futebol e a família dele. É por isso que ele chegou onde chegou e morreu como um herói - destaca.

 Dona Nina diz que a saudade fere diariamente, mas que as boas lembranças do filho são as que ficarão guardadas na memória.

 - Eu pego essa foto, abraço e beijo. Eu sinto como se eu estivesse beijando ele de verdade. É uma dor aqui dentro, que ainda não sarou. Eu pretendo levar esse sorriso dele, lindo, maravilhoso. Quero levar as lembranças boas, aquele filho amado. É isso que eu vou levar do meu Gil. Esse menino meigo, esse filho, esposo e pai maravilhoso - finaliza.

 

Fonte: G1/RN

 

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